sábado, 16 de outubro de 2010

São 761 mil estudantes, contra 397 mil há dois anos

Imagine uma universidade sem salas de aula, horário de entrada nem conversa no fundão. Professor, só pela tela do computador. E você estuda onde e a hora em que quiser. Interessado? É a graduação a distância, modalidade que cresce em ritmo vertiginoso no país e oferece cerca de 1,5 milhão de vagas em 145 instituições, cerca de 70 das quais públicas.
Apenas entre 2007 e 2008, o número de alunos quase dobrou; saiu de 397 mil para 761 mil - a participação dessa modalidade no ensino superior saltou de 4,2% para 7,5%.
Se entrar é fácil, desistir também: a evasão chega a 70% em alguns casos. Segundo coordenadores de cursos, só vai bem nesse tipo de curso quem é organizado, disciplinado e tem concentração para conseguir estudar em casa ou no trabalho.
Essa é uma das razões para os cursos de graduação a distância atraírem um público mais velho do que o do vestibular de cursos convencionais. Cerca de 68% dos alunos têm a partir de 25 anos, aponta censo de 2008 da Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância).
É o caso de Renato Ignácio, 47, de Ribeirão Preto (SP), que voltou a estudar após largar duas faculdades e não queria trocar a convivência familiar pela sala de aula. Ou de Irene Lício, 57, que diz aprender melhor com o estudo individual. Ignácio estuda sistemas de informação na UFSCar (federal de São Carlos); Irene, administração na Anhembi Morumbi.
Os dois dizem se empenhar porque estudar pouco, na educação a distância, é fracasso certo. “Quem pensa que o curso é de final de semana se dá mal. Nosso aluno tem de estudar ao menos 24 horas semanais”, diz Daniel Mill, coordenador de educação a distância da UFSCar - que, no último vestibular, ofereceu 650 vagas em cinco cursos. As inscrições neste ano começam em dezembro.
Para Ignácio e Irene, o ritmo puxado torna o aprendizado do aluno mais consistente. “Você aprende a raciocinar. O conhecimento se solidifica”, diz ele, que estuda de madrugada. “No presencial, divaga-se mais.”
Em 2007, o Enade (exame do Ministério da Educação que avalia universitários) revelou que alunos de cursos a distância se saíram melhor do que os de presenciais em 7 de 13 áreas em que houve a comparação.
Mas não é sempre que educação a distância significa qualidade: em 2008, o MEC mandou desativar 1.337 polos de educação a distância no país - há mais de 5.000. Nesta semana, o ministério abriu processo para descredenciar a Unitins (Fundação Universidade Estadual Tocantins), que recorrerá.
No ensino a distância, as aulas são em vídeo ou com material didático disponibilizado na internet. Dúvidas são tiradas on-line com o professor ou nos polos - espécie de filiais da instituição, onde ocorrem as provas.
(Ricardo Gallo)
Preconceito existe, mas mercado aceita melhor hoje aluno de curso a distância
Na hora de optar por um curso a distância, uma dúvida pode passar pela cabeça dos alunos: será que vou estar em desvantagem no mercado de trabalho?
Segundo uma pesquisa feita pela Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância), a resposta é não, mas só entre empresas que já têm uma cultura de educação a distância entre os seus funcionários.
No CensoEAD.br/Abed, ainda inédito, de 32 grandes empresas, como Vale e Petrobras, 24 (75%) responderam que não faz diferença, durante um processo seletivo, que o profissional seja formado por um curso presencial ou a distância.
Para o presidente da Abed, Fredric Michael Litto, apesar de ainda haver preconceito, o cenário tem melhorado principalmente porque a qualidade dos cursos evoluiu.
Na Natura, por exemplo, o ensino a distância é bastante utilizado na capacitação de seus funcionários. Segundo a gerente de educação corporativa, Denise Asnis, não interessa se o curso é presencial ou a distância, desde que seja reconhecido pelo MEC.
Para Constantino Cavalheiro, diretor da Catho Educação Executiva, “o que importa é se a pessoa sabe ou não fazer algo, e não como ela aprendeu”. Mas ele recomenda ter cuidado na hora da escolha. Segundo Cavalheiro, o que faz a diferença é a credibilidade da faculdade.
A professora Simone do Nascimento da Costa, 29, se preocupou em escolher uma instituição que foi recomendada por outros alunos e fez um curso de gerenciamento de recursos humanos na Metodista. Acabou empregada pela própria universidade.
“No começo, eu tinha um certo receio em relação ao mercado de trabalho. A turma inteira tinha. Mas ninguém deixou de conseguir um emprego porque fez curso a distância. Agora, se eu tiver que fazer outra graduação, prefiro que seja a distância”, diz.
(Anna Carolina Cardoso)
(Folha de SP, 11/8)

4 comentários:

  1. Apesar de já ter algum tempo, este artigo da folha de São Paulo ilustra bem o sentimento que eu nutria antes de conhecer melhor o sistema EAD: tinha uma descrença total com a modalidade. Ver-se que o mercado hoje não mais discrimina entre profissional formado presencialmente e o à distância. O que importa no final é a qualidade do aluno e não como ele foi formado. Em fóruns (na plataforma moodle) deixei explícito que passei radicalmente de crítico para defensor da ensino a distância, esse reconhecimento do mercado de trabalho nos deixa ainda mais estimulados em cumprir com o proposto no curso do qual participamos.

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  2. Sempre tive certa curiosidade pelo EAD (Ensino a distância), tomei contato com essa idéia quando li alguma coisa sobre um tal PBL (Aprendizado baseado em problemas) da Harvard Medical School, que na verdade é totalmente a mesma coisa mas reflete de alguma forma o ideal do EAD. Também observo que depende muito do aluno, mas a qualidade da instituição escolhida conta muito. De toda sorte, penso que no futuro o ensino será como canais de TV a cabo, cada um terá autonomia de se matricular na escola que quiser e construir seu aprendizado de sua própria casa. É um universo de possibilidades para o ensino que com certeza está apenas começando.

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  3. Retificando: na quarta linha de meu post eu quis dizer que o PBL "não" é totalmente a mesma coisa que EAD mas lembra na medida que estimula o acadêmico a prática individual do estudo.

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  4. Atualmente trabalho em uma faculdade que oferece cursos presenciais e tenho percebido que muitos alunos por terem um professor em sala de aula, não buscam outras fontes de aprendizagem, ou seja, não se preocupam em ser o sujeito da aprendizagem. Estes alunos Acabam absorvendo somente o que o professo ensina em sala e se preocupam apenas em estudar para as avaliações, deixando claro que o objetivo maior e com a nota e não com o conhecimento.

    Conforme o artigo da folha de São Paulo, em 2007, o Enade revelou que alunos de cursos à distância se saíram melhor do que os de presenciais em 7 de 13 áreas em que houve a comparação. Acredito que este resultado seja em decorrência da falta de compromisso dos alunos de cursos presenciais com o ensino, pois muitos deles não estudam em casa e não sabem como estudar.

    No passado havia muita desconfiança no ensino a distância. Hoje, conforme o próprio artigo, o preconceito por parte das empresas e menor. Desta forma, espera-se que o ensino a distância cresça bastante no país e esperamos também melhoras no ensino presencial, principalmente maior responsabilidade dos alunos.

    Cláudio Araújo

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